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Jó não freqüentava restaurantes. Até porque, na época, eles não existiam. Mas não deixa de ser interessante imaginar qual seria sua reação se se dispusesse a almoçar, num domingo, no novo Taormina. Daí, sim, avaliaríamos a extensão de sua bíblica paciência.
O antigo Taormina ficava na Peixoto Gomide. Restaurante pequeno, funcionava apenas para almoço, servia 40 e poucos lugares e mantinha um menu único e completo: couvert, entrada, uma massa (quatro ou cinco opções por dia), frutas e café, acompanhado de cannoli. Mantinha o clima familiar, ampliado pela simpatia e pelo cuidado – na cozinha e no salão – da sra. Elena que, com seu marido, ambos vindos da Sicília, criou e tocava o restaurante, que não demorou muito para fazer sucesso. Guias e revistas gastronômicas celebraram a excelente relação custo-benefício: o menu saía por 16 reais durante a semana, 22 no sábado e no domingo; a massa era boa e os molhos, bem feitos. O serviço era confuso, talvez excessivamente centralizado, mas, com um pouco de paciência, as coisas aconteciam.
O restaurante encheu. Durante a semana, a clientela era composta por pessoas que trabalhavam na região. No final de semana, parecia que São Paulo inteira ia para lá. Não cabia mais na casa da Peixoto Gomide e, há cerca de um mês, nasceu o novo Taormina, na Alameda Itu, a umas cinco quadras do antigo, num espaço bem maior. O sistema de menu único continuou. A decoração, baseada na combinação de salmão e verde e nos cartazes que mostram paisagens da ilha, também se manteve igual. O térreo preservou a feição do antigo restaurante, mas a casa passou a contar também com um salão subterrâneo. E parte dos problemas começa aí. Quase totalmente fechado e de teto baixo, parece um salão de festas de igreja. Há uma pequena área lateral aberta, ladrilhada, para onde vão os clientes que querem fumar. O barulho lá dentro é ensurdecedor, mesmo com apenas metade da ocupação. A própria sra. Elena reconheceu: ainda não nos acostumamos com as escadas e o andar inferior. E os clientes são esquecidos lá embaixo.
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Escrito por alhos, passas & maçãs às 09h51
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Vários garçons (cinco ou seis) circulavam perdidos pelo salão. Todos atendiam a todas as mesas e, na prática, a nenhuma. O couvert (pequeno demais, mas gostoso: pão “italiano” com ricota temperada no azeite e manjericão) veio depois de uns dez minutos de espera; a carta de vinho só chegou após três ou quatro pedidos e junto com a entrada (uma lâmina de berinjela enrolada e coberta por um sugo saboroso, com a acidez completamente domada). A carta de vinho, pequeniníssima, com seis ou sete rótulos na faixa dos 40 reais. Optei por um nero d’avola honesto, com 100% de sobrepreço. E passei a esperar a pasta. E esperar, e esperar. Éramos três pessoas: um casal e uma criança. Sra. Elena veio à mesa, sempre atenciosa, e disse que apressaria o prato de minha filha. Uns dez minutos depois chegaram os pratos dos adultos. Só. Mais dez minutos até que chegasse o da criança, que felizmente começou a comer dos nossos e gostou. Estavam mesmo bons. A pasta alla norma, clássico siciliano (massa seca ao sugo com berinjela e ricota seca – no caso, não picante), foi rebatizada no novo Taormina de “mafioso”, mas prossegue boa. Seria melhor se a massa fosse feita na casa e a berinjela, um pouco mais notável. Já o ravioli de mussarela com molho de alcachofra era excelente. Alcachofra em conserva de boa qualidade, com sabor marcante e sem ser excessivamente ácida; massa feita no restaurante, cozida no ponto, e com recheio consistente; equilíbrio preciso. Justificava a paciência com o serviço confuso e a imensa espera? Até então, sim.
Só que acabamos a pasta e nos pusemos a esperar a sobremesa. E lá se foram quatro pedidos aos garçons e trinta minutos, cronometrados. Até que me levantei e fui procurar a sra. Elena na cozinha. Ela, claro, providenciou rapidamente que as frutas chegassem à mesa: quatro lâminas (duas de abacaxi, uma de melancia e uma de mamão) com xarope de frutas vermelhas. Agradável, mas destituída de atrativos. Simpática, sra. Elena ainda nos enviou um pratinho com quatro cannoli. Ótimos, como sempre foram os cannoli do Taormina: massa fina, sequinha e crocante, recheada de pasta de ricota com frutas secas e um toque de laranja. Deliciosos e delicados. O problema é que a paciência já tinha esgotado e, nessa altura, estávamos tensos. Diante de nova perspectiva de espera, desistimos do café e fomos até a caixa pagar a conta (esperá-la acabaria com o resto do domingo). Conversei com o proprietário na caixa, que nos pediu desculpas e mencionou a dificuldade de obter bons garçons e, mais, de treiná-los. Achei um pouco burocrática a conversa e novamente procurei sra. Elena na cozinha. Afinal, tudo passa por ela no restaurante e talvez esteja aí, nessa centralização excessiva, uma das origens da confusão do serviço. Queria falar-lhe algo simples e rápido: a comida dela era ótima, mas era difícil ter vontade de voltar lá. Como sempre, foi extremamente atenciosa, voltou a pedir desculpas, dispôs-se a não cobrar a conta (que, claro, eu já havia pago: reclamações antes do pagamento podem sugerir oportunismo), acompanhou-nos até a porta e pediu que voltássemos.
Voltaremos um dia. Não sei quando. Gostaria, antes, de pedir que Jó fosse almoçar lá. Talvez ele resistisse e gostasse da comida que, de fato, tem uma relação custo-benefício excelente (25 reais por pessoa!, sem bebidas). Certamente também gostaria da maneira acolhedora da sra. Elena. Mas o que eu queria mesmo era ver se ele se manteria sereno em meio ao absoluto caos do serviço. Como não dá para fazer esse teste, resta esperar algum tempo e torcer para que o novo Taormina se organize melhor.
setembro de 2006
Taormina. Alameda Itu, 251, Jardim Paulista, São Paulo
Escrito por alhos, passas & maçãs às 09h51
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