Certos restaurantes fazem parte de nossa história pessoal. Um desses, para mim, é o Chef Rouge, que antes tinha um “Le” inicial, e agora não tem mais. Vou lá desde que abriu, em 1993, duas ou três vezes por ano e quase sempre peço o mesmo prato, o que revela alguma falta de imaginação, mas também reforça a convicção de que um bom restaurante se faz pela regularidade – e nada melhor do que reencontrar o mesmo confit de pato e ver como ele está.
E ele está bem. Reservei com antecedência para as 20h30 e, ao chegar, revi a decoração em vermelho, como diz o nome, que prossegue bem cuidada e cuja relativa obscuridade acentua o jeito de bistrô elegante. Uma surpresa, porém: restaurante vazio. Mas era uma questão de ritmo; meia hora depois, quase todas as mesas já estavam ocupadas e o burburinho, alto (até demais). Chegou o couvert: três tipos de pão, queijinho, manteiga temperada, foie gras. Provei rapidamente o queijo (saboroso, com acidez marcante, mas controlada), em seguida o esqueci e ataquei o foie: na textura exata, feito com fígado de galinha e puxado no limão (na segunda porção, o limão estava um pouco mais destacado do que deveria, mas ainda assim muito saboroso). O jantar começava bem e o acompanhamento de um Bordeaux superior (uma opção geográfica...), com 100% de sobrepreço em relação ao cobrado na importadora, auxiliava. A carta de vinhos, por sinal, continua pequena, mas com opções interessantes e coerente privilégio aos franceses.
O pedido foi o habitual: confit de pato ao molho de cassis, acompanhado de fettuccini e filetes de legumes. Bem servido, o prato apresentava duas peças de pato (em torno de 300g), com idêntica maciez e sabor. A memória talvez fizesse lembrar de outros confits comidos lá, que tinham sabor mais destacado (outro fornecedor?), mas nada que atrapalhasse o prazer de sentir a acidez e a doçura do cassis envolvendo o sal contido e o aroma intenso do pato. Ou a delicadeza dos fettuccini mesclados aos legumes, que se fazem presentes sem se impor ou encobrir a carne que acompanham.
Em alguns momentos, me arrependi de não ter escolhido um Bourgogne, cuja maior suavidade talvez equilibrasse com mais precisão a carne, mas o Bordeaux continuava eficaz, talvez porque a fruta do vinho dialogasse bem com o cassis do prato. O ideal teria sido ter as duas garrafas na mesa, mas o bolso da gente não pode se dar a esse tipo de luxo. De qualquer forma, tudo continuava a fluir bem.
Hora da sobremesa e alguma expectativa. Dois garçons trazem tortas à mesa para que eu escolha, mas a tarte tatin – a melhor de São Paulo, como já elegeu alguma revista – não está entre elas... Momentos de tensão, aplacados quando um dos garçons confirma que há, sim, a torta e a providencia. Guarnecida de sorvete de creme, ela surge, intensamente aromática e com o regular contraste entre o crocante da massa e a maciez – novamente cruzada de acidez e de doçura – da maçã. O sorvete é um tanto sem graça e quase dispensável. A massa poderia estar um pouco mais crocante. Mas mesmo assim está ótima.
O café, infelizmente, não veio curto como foi pedido, mas já estou quase acostumado a isso. Rarissimamente chega só aquele golinho denso e essencial. Está, porém, correto, com amargos adequado e bastante fruta; o acompanhamento de petit-fours é simpático e agradável. A conta? Descontado o vinho, 100 honestos reais por pessoa.
Resta pegar o carro, voltar para casa e aguardar a próxima visita ao Chef Rouge. Enquanto isso, usar seu confit de pato como paradigma todas as vezes que comer esse prato em outros restaurantes, estabelecendo uma espécie de ranking paulistano do pato, no qual o Chef Rouge tem certamente uma das primeiras posições.
Chef Rouge. Rua Bela Cintra, 2238, Jardim Paulista, São Paulo, tel. 3081 7539