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alhos, passas & maçãs


Um conhecido personagem da atual literatura italiana, o Comissário Salvo Montalbano, adora comer e tem ótimo paladar, principalmente para pescados. Em suas histórias, escritas por Andrea Camilleri, há longas e deliciosas descrições de comidas e jantares. Mas o ritual de Montalbano a cada refeição exige pelo menos duas coisas: bastante tempo e pouco barulho. Dificilmente ele conseguiria, portanto, jantar no La Tartine, bistrô francês de comida de razoável a boa, mas de ruídos insuportáveis.

 

É uma pena, aliás, que seja tão barulhento porque é um lugar muito simpático. Pequeno, ocupa uma casa na região da Consolação. A vizinhança é meio barra pesada, com inúmeras moças de vida, digamos, airada ocupando as calçadas com seus decorrentes clientes e senhores. Outro vizinho é o Mestiço, restaurante que mistura influências orientais e ocidentais e fica na mesma calçada, a poucos metros do La Tartine. A casa, um sobrado, tem dois ambientes recheados de imagens alusivas à origem francesa da comida: capas de LP, cartazes e fotos de atrizes e escritores, de atores e cantoras. Tudo simples e charmoso. O restaurante se comunica, pelo andar de cima, com uma pequena loja, que mistura peças antigas e novas, inspiração kitsch e moderna – ou “alternativa” –, e cobra, em geral, preços muito altos. Vale, porém, a visita.

 

O cardápio é pequeno e se compõe de entradas, sopas e, principalmente, quiches. A cada dia são preparados alguns pratos principais – em geral, clássicos da culinária francesa. Na última visita, comemos uma quiche de queijo de cabra com tomate, acompanhada de salada de folhas verdes com nozes, e um salmão no molho de azedinha com batatas pequenas cozidas. A quiche, excelente, mostrava a exuberância do sabor do queijo da cabra (um animal fabuloso!) e trazia massa leve e crocante, textura suave e airada (para combinar com as moças da rua, talvez) e tomates de acidez reduzida, o que evitava um contraste excessivo com o sabor intenso do queijo. Deliciosa. O ponto negativo ficou por conta das nozes que estavam na salada: amolecidas e com gosto de velhas, precisamos afastá-las para o canto do prato para que não comprometessem o resto.

 

O salmão também veio no ponto: saboroso, suculento e macio, com a crosta ligeiramente tostada. As batatas eram de boa qualidade, sem o gosto de terra que encontramos em tantas delas, e o molho de azedinha, apesar de um tanto cremoso demais (ah, os franceses e seus cremes...), acompanhava bem o peixe.

 

De sobremesa, só pedimos uma porção de profiteroles (grafadas erradamente no cardápio, com dois LL). As carolinas vieram crocantes – algo incomum numa cidade em que até bons restaurantes servem profiteroles molengas e murchas. Muito gostosas e bem superiores ao sorvete de creme utilizado para o recheio (sem graça) e à calda de chocolate da cobertura, doce demais. O café foi bem tirado (curto), mas era pouco espesso e muito amargo.

 

Tristes são as opções de vinho: poucas e inexpressivas. É razoável que uma casa pequena apresente poucos rótulos, mas poderia tranqüilamente melhorar a qualidade deles – até porque o sobrepreço cobrado é justo. Poderia também instruir melhor os garçons para que, quando perguntados sobre os vinhos, não respondam que “têm um chileno, um bordeaux e um malbec” (a falta de informações também aparece na carta). Isso não esclarece em nada, a não ser quanto ao fato de que o vinho não é tratado com respeito no restaurante.

 

Nada trágico, porém, sobretudo se considerarmos que La Tartine é um lugar onde se come decentemente por um preço baixo: cerca de 90 reais pela refeição de um casal, com sobremesa. Uma ótima opção para um dia da semana, um jantar normal, sem maiores delongas ou expectativas. Só não esqueça de levar os tampões de ouvido.

 

 

La Tartine. Rua Fernando de Albuquerque, 267, Consolação, São Paulo, tel. 3259 2090



Escrito por alhos, passas & maçãs às 10h18
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Alguns restaurantes conseguem atrair um público específico e viver fartamente dele. Pensava nisso enquanto observava a quantidade de mesas ocupadas exclusivamente por moças (duas, três, quatro, cinco) no Insalata. Não sei se pela região (muitos escritórios) ou por qualquer outro motivo. O fato é que, fora minha mesa e outra, próxima (outro casal), todas as demais estavam tomadas por mulheres com jeito de executivas saindo do trabalho, mas ainda presas ao celular.

 

O Insalata é um lugar interessante, com jeito meio despretensioso, decoração com madeira e pintura texturada nas paredes, garçons e garçonetes simpáticos e jovens. O cardápio, ao contrário do que o nome do restaurante pode sugerir, não se restringe a saladas. Mas elas são o que há de mais interessante por lá. Existem as clássicas – a Caesar, a de folhas verdes para acompanhar carpaccio, etc. – e algumas inovações: a Casablanca e a Istambul, por exemplo, como os nomes sugerem, trazem elementos árabes na sua composição: cuscus marroquino e amêndoas, na Casablanca (junto com folhas verdes, passas, frango desfiado – por que não cubos de carneiro? –, tomate cereja e pimentão), chancliche com zaatar, figo e as mesmas amêndoas, na Istambul (com folhas verdes, manjericão e torradas). A Caprina, outro clássico, aparece em versão com mel sobre o queijo ligeiramente aquecido, repolho roxo, pêra e tomate cereja. Todas custam um pouco mais de 20 reais e são bem servidas.

 

Há apenas duas opções de bruschette para a entrada: a tradicional, com mussarela de búfala, rúcula e tomate picado, e outra, mais ousada, com brie e mel. Os ingredientes são de boa qualidade e a aparência é ótima, mas elas estavam pouco crocantes – o que, em se tratando de bruschette, é pecado mortal. O cardápio traz, ainda, opções de risotos, grelhados, massas, tortas (meio sem graça) e sanduíches, um dos pontos fortes da casa: são variados e bem concebidos, com preços entre 16 e 20 reais.

 

Na última visita, optamos por combinar um grelhado (cujos preços rondam os 30 reais) com uma salada (acréscimo de mais 3 reais). Pedimos um salmão acompanhado de salada Mantova (folhas verdes, mussarela de búfala, alcachofra, cubos de frango defumado, crispies de bacon, tomate cereja e batata palha, coberta de parmesão ralado) e um miolo de alcatra com a salada Istambul. O peixe e a carne vieram no ponto. O salmão mantinha o sumo de quem não foi colocado nas brasas do inferno e o sal estava na quantidade exata (algo raro numa cidade que adora despejar potes de sal em cima dos pobres salmões). A salada, porém, revelava algum desequilíbrio, provocado pelo picante excessivo do parmesão, que nublava o sabor até das alcachofras em conserva e da rúcula. O miolo de alcatra chegou saboroso, vermelho e extremamente macio, suculento. O sujeito que cuida da grelha conhece o ramo. O que busca fornecedores, também. A Istambul foi agradável, ainda que o zaatar não desse muito o ar da graça e o chancliche, o ar do gosto (talvez aqui o fornecedor não seja da mesma ordem...).

 

A carta de vinhos é pequena, composta de rótulos de uma só importadora (e, nos nacionais, só Miolo), mas bastante honesta, com sobrepreço, em alguns casos, de menos de 40%. As sobremesas são comuns (petit gâteau, brownie, sorvetes, cheese cake) e não empolgam. O café é correto, mas carece de corpo. No final, uma conta de 80 reais para duas pessoas (sem entrada, sobremesa ou vinho), o que é adequado para um jantar de uma quarta à noite, sem maiores comemorações.

 

E, parece, é adequado também para que jovens executivas se encontrem e coloquem o assunto em dia antes de irem para casa. Mesmo que o interlocutor não esteja de corpo presente, uma vez que falavam mais ao celular do que ao vivo. E falavam alto, o que tornava o Insalata um lugar agradável, correto, capaz de servir bons pratos a preço honesto, mas um tanto barulhento demais...

 

Insalata. Alameda Campinas, 1474, Jardim Paulista, São Paulo, tel. 3885 1514



Escrito por alhos, passas & maçãs às 16h21
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É sempre um pouco misterioso o motivo do sucesso (ou do fracasso) de um restaurante. Às vezes, ótimos restaurantes naufragam – nunca me esquecerei do risoto de frutos do mar do finado Bice, por exemplo, ou do pato com vareniques do Cecilia, que fechou no final de 2006. Outras vezes, restaurantes fracos persistem, sempre lotados, por anos. Publicidade? Ponto “micado”? Ambiente? Moda? Difícil saber.

 

A questão me veio à cabeça quando fui, pela terceira ou quarta vez, à Mercearia do Francês. A sugestão foi de alguns amigos que me acompanhariam, e eu topei. Ao chegar, notei que estava cheio e o Ici, ao lado, quase vazio – não por muito tempo, como pude constatar pouco depois, com alívio de quem adora o pato do Ici. O rapaz que nos recepcionou na Mercearia foi muito atencioso e se dispôs a arranjar uma mesa agradável para nós. Aguardamos cerca de vinte minutos e pudemos nos sentar num ótimo lugar. Começávamos bem e pudemos esquecer a relativa decepção das visitas anteriores – não pelo lugar, mas pela comida, que, se não chegou a ser ruim, tampouco empolgava. Nas outras visitas havíamos provado um St. Pierre com purê de mandioquinha e redução de balsâmico, o confit de pato com cuscus de abóbora e redução de vinho tinto e um festival de moules & frites. Nos dois casos, saímos com a sensação de que faltava algo. Sabor (no caso do confit, do cuscus de abóbora, do purê de mandioquinha e, principalmente, dos mariscos), concepção (caso do St. Pierre) ou densidade (na redução de balsâmico ou de vinho tinto). No conjunto, os pratos careciam de expressividade.

 

Agora estávamos bem alojados, com boa companhia: certamente seria melhor. Decidimos por peixes: um atum mi-cuit com purê de cará e redução de balsâmico e mel e o salmão grelhado com crosta de gergelim, acompanhado de legumes e vinagrete de tomate e shoyo. É... mas não foi dessa vez que a cozinha da Mercearia do Francês nos pegou. O atum veio um pouco acima do ponto – e o resultado é conhecido: a carne perde suco, textura e sabor (ué, não era mi cuit?). O purê de cará era inexpressivo. Talvez faltasse algo para acentuar o gosto discreto do tubérculo. A redução de balsâmico e mel, forte, impunha-se sobre todo o restante do prato, comprometendo definitivamente o equilíbrio. Já o salmão – também um pouco além do ponto devido (será que o francês sucumbiu à velha mania brasileira de torrar peixe?) – estava insosso e os legumes quase se resumiam a brócolis e cenouras. Ruim? Não, mas faltava graça, estilo.

 

A carta de vinhos da Mercearia do Francês não é muito grande, mas é diversificada e o sobrepreço, razoável (em torno de 60% nos vinhos mais baratos e 50% nos mais caros). Uma única sobremesa foi pedida na mesa: ópera com sorvete de creme e calda de frutas do bosque. O doce confirmou as impressões anteriores: o doce era ligeiramente insípido, acompanhado de sorvete idêntico e de calda com acidez quase nula, o que é estranho em se tratando de frutas do bosque. Os cafés vieram logo e estavam saborosos, mas o pedido de que um deles fosse curto foi solenemente ignorado.

 

O pior, no entanto, foi o serviço. Toda a boa impressão da chegada se apagou diante da atuação de um atrapalhadíssimo e grosseiro garçom, a quem coube servir nossa mesa. O suco de uma criança que nos acompanhava não veio mesmo após três pedidos – precisamos recorrer ao maître. Uma amiga que nos acompanhava, mas que não iria jantar, teve o pedido de uma taça desconsiderado sistematicamente. Quando os pratos quentes chegaram ainda não havíamos conseguido obter garfos e facas para todos As frases do garçom vinham secas e cortantes como um Martini, só que não tinham o sabor do drinque e o volume era um tantinho alto demais, talvez para combinar com a informalidade do vocabulário e do tratamento dispensado aos clientes. Isso quando conseguíamos atraí-lo à nossa mesa, o que era raro; preferia passar longe com aquele olhar voltado ao infinito que só os maus garçons conseguem desenvolver com precisão.

 

A conta, que incluía o serviço – a despeito dele ter sido impagável –, atingiu a média de 100 reais por pessoa. Pas mal, pas bon.

 

Saí de lá e contemplei a longa fila de espera. Daí me pus a pensar no motivo do sucesso de alguns restaurantes...

 

 

Mercearia do Francês. Rua Itacolomi, 636 (esquina da Rua Pará), Higienópolis, São Paulo, tel. 3214 1295



Escrito por alhos, passas & maçãs às 15h41
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