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alhos, passas & maçãs


O melhor vinho do mundo

crônica

 

 

Reunião de nossa pequena confraria. Desde que acabamos um curso básico sobre vinhos, faz dois anos, nos reunimos sempre, cada vez na casa de um: Anna, Marcel e eu. Respeitando o revezamento, agora era na minha casa.

 

Foi curioso como nos conhecemos: os três quietos nas aulas, meio constrangidos. Cheios de dúvidas se algum dia iríamos sentir algum daqueles aromas que os colegas, aparentemente, notavam logo que a taça chegava à mesa. Num dia aconteceu de chegarmos à aula bem mais cedo, os três. Começamos a conversar, falar de família e de trabalho, comentar o curso e, claro, os gostos de cada um.

 

Na semana seguinte (já era a quarta aula), sentamos perto, os três, e trocamos as impressões que tínhamos de cada taça que bebíamos. Houve até a dúvida se um deles estava bouchonné ou não (e estava). Dali em diante, sempre ficávamos próximos durante as aulas, sempre comparávamos nossos narizes e nossas bocas.

 

No final da penúltima aula, saímos do prédio conversando e, quando andávamos pela rua até os carros, alguém (acho que foi Anna) falou que seria gostoso se marcássemos um jantar para comemorar nossa “formatura”. Os outros dois gostaram da idéia.

 

Passada a última aula, nos encontramos num restaurante simpático e tentamos, com sucesso parcial, analisar os dois vinhos que tomamos. Valeu principalmente pela conversa. Tinha liga entre nós. Daí a idéia (de novo, acho, da Anna) de montar a confraria. E assim foi. Primeiro em restaurantes e depois, quando a intimidade ficou maior, nas nossas casas.

 

Dois anos e muitas garrafas depois, estávamos em minha casa, numa seqüência de chardonnay (novo mundo, velho mundo; com madeira, sem madeira; e por aí afora), quando alguém (Marcel, dessa vez) lançou a pergunta desafiadora: qual é o melhor vinho do mundo?

 

Claro que não sabíamos. Mas dava para palpitar. Fui o primeiro, convicto:

 

- “Petrus 61.”

 

Os dois me olharam perplexos e perguntaram em coro:

 

- “Você já tomou um Petrus 61?”

 

Só havia uma resposta. Tinha que confessar:

 

- “Não. Na verdade, nunca tomei qualquer Petrus. Mas já li muito sobre ele...”

 

- “Não vale!”, cortou Marcel, rindo. E emendou: “Para mim, foi um Pavillon Rouge, o segundo de Margaux. 90. Acho que o Parker deu 97 para ele.”

 

Reagi, vingativo:

 

- “O Parker deu 97. E você, 90? E quando tomou? Ou também leu...”



Escrito por alhos, passas & maçãs às 13h39
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- “Tomei”, Marcel esclareceu, coerente, orgulhoso, triunfante. “E ninguém deu 90. 90 é a safra, ótima em Bordeaux”.

 

Humilhado, ainda insisti, provoquei, procurei alguma falha:

 

- “E quando você tomou? Onde? Antes ou depois do curso? Analisou direitinho ou simplesmente obedeceu ao Parker?”

 

Marcel, calmo, riu um pouco de minha inveja e esclareceu:

 

- “No final do ano passado. Numa degustação feita por um restaurante. Depois do curso. E analisar, analisei, mas claro que não ponho minha mão no fogo por minhas análises. Tinha mais gente lá, gente boa, que disse que aquele era o melhor segundo vinho de Bordeaux. Ou o melhor. E era bom demais.”

 

Sempre ressentido, ataquei outras duas vezes:

 

- “Não era cedo demais para tomar um vinho desses? E como foi? Pediu a garrafa, tomou uma, duas, três taças? Olhou, cheirou e bebeu com atenção ou tomou um terço de taça e saiu por aí dizendo que era o melhor do mundo?”

 

Em tom brincalhão, fingindo não perceber minha hostilidade, Marcel esclareceu que de fato foi só um terço de taça (“era uma degustação, lembra?”), que talvez fosse mesmo cedo, mas que tinha sido bom, muito bom, e essa era a prova dos nove.

 

Anna notou o clima e interveio para quebrá-lo. Nunca tinha tomado o Pavillon Rouge, muito menos um Premier Grand Cru Classé de Bordeaux. Mas deviam ser maravilhosos mesmo. Só achava que a questão não fazia sentido. Arrematou:

 

- “Variedade, variedade! Além disso, depende da hora, do dia, da companhia, do lugar, do cansaço, do ânimo, da disposição, do paladar. De um monte de coisas.”

 

Marcel e eu concordamos e selamos silenciosamente a paz. Anna ainda teve tempo (já estava ficando tarde) de dar um exemplo:

 

- “O melhor vinho da minha vida... Não do mundo. Da minha vida... E, claro, até hoje, porque pode vir outro. Pois bem, o melhor vinho de minha vida foi um Amarone, da Agrícola Masi, 88. Não sei quanto o Parker deu, nem o Veronelli. É um tremendo vinho. E melhor: estava em Murano, jantando um fegato alla veneziana. Era meu aniversário, meu marido e meu filho do lado. Fazia frio e eu estava muito feliz. O Amarone aumentou minha felicidade e nunca mais esqueci da cena. Da cena completa.”

 

Questão liqüidada, todos devidamente pacificados em torno do prazer, do passado e do presente que o vinho dá. No dia seguinte, fui até a importadora e procurei o Amarone Masi 88. Não havia mais no Brasil. Comprei um 91, levei para casa, pus para decantar. À noite, com minha mulher e minha filha, tomei, acompanhando, claro, um fegato.

 

Foi ótimo. Só que não era Murano, não era uma data especial. Aproveitei, mas claro que meu passado não estava naquela taça, como estaria na de Anna. Era outra experiência.

 

Porque memória, é bom saber, não é coisa que se empreste. E vinho, além de vida, é memória. Ponto para Anna: para saber qual é o melhor vinho é preciso ver a cena completa.

 

(Essa crônica foi originalmente publicada na revista Prazeres da Mesa número 33, fevereiro de 2006)

Escrito por alhos, passas & maçãs às 13h37
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