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O que é exatamente um bistrô? A pergunta pode ser estranha na França, mas não em São Paulo. Por aqui, bistrô virou simplesmente sinônimo de restaurante francês (do mesmo jeito que brasserie – sabe lá Deus por quê). O resultado é que o paulistano pode ir a um bistrô e pedir coq au vin ou confit de pato e não encontrar nenhum deles – ou ter de se contentar com uma espuma de filé au poivre, num ambiente extremamente formal e sofisticado.
Por isso é um alívio quando se vai a um bistrô e, por incrível que pareça, é um bistrô mesmo: o Charlô Bistrô.
Ligeiramente aclimatado (tem picadinho, carne seca) e sem um ou dois pratos habituais de bistrô. Mas um bistrô de verdade.
Na rua, você estaciona sem ser importunado pelos bravos valetes que infestam as portas dos restaurantes (bravos de braveza, não de bravura). Eles estão lá, mas não se incomodam, nem o incomodam quando você estaciona o carro bem na frente do restaurante – naquele lugar que um valete normalmente supõe que pertence a ele. Entra no restaurante e encontra a simpatia típica de um bistrô. É recebido com sorriso, com educação e gentileza – sem nariz empinado, nem tapinha nas costas.
Escolhe a mesa onde quer se sentar, e não é arrastado para aquela mesa horrível, que os maîtres às vezes imaginam que já estava destinada, desde a fundação do restaurante, a você.
Em seguida, chega o garçom, igualmente simpático. Durante a refeição, você descobrirá que ele também é atencioso. Exemplo concreto: é um garçom que serve vinho quando você acaba de tomar o que está na taça – e não daqueles sujeitos grudentos, que repõem o vinho a cada gole que você toma, nem dos desleixados que levam a garrafa para uma mesinha distante da sua, impedindo que você se sirva em caso de urgência, e esquecem de continuar o serviço.
O ambiente é bem arrumado, sem excessos nem formalismos. Fotos e quadros nas paredes, mesas e cadeiras confortáveis, nada de suntuosidade; elegância e estilo na dose certa. Clima de... bistrô.
Vem o couvert simples, mas impecável: pãezinhos variados e quentinhos, delicados e bem feitos, uma manteiga suave e um patê de foie (de porco) de textura macia e sabor destacado. Não precisava mais, mas chega um caldinho, que você também toma. Quando o patê acaba (e vai acabar porque ele é muito gostoso), o garçom providencia mais um, sem incluir outro couvert na conta.
O vinho? A carta é honesta, boa e relativamente variada, com predomínio (mas não exclusividade) de uma importadora e com predomínio (mas não exclusividade) dos franceses. Os italianos são poucos e caros e os rótulos do novo mundo, um tanto óbvios. Falta também um Borgonha abaixo dos 150 reais (na carta que está no site do bistrô, tem), mas você se defende com os Bordeaux básicos, cujos preços (entre 50 e 80% acima do que a importadora cobra) rondam os 100 reais.
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Escrito por alhos, passas & maçãs às 08h43
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Os pedidos de dois patos mostram o cuidado do preparo. O magret (40 reais), acompanhado de rúcula refogada e de peras, vem mal passado, um pouco mais rijo do que talvez esperássemos, mas muito (muito mesmo) saboroso. O confit (40 e poucos) recebe o acompanhamento de batatas (em formato de foguetinhos, assadas e muito gostosas) e de maçãs. O tamanho da coxa é perfeito (algo como 300 gramas), sem excesso nem falta de gordura. A carne é extremamente macia e saborosa, a pele é crocante, efeito provável de uma fritura após ter sido assada. Um dos melhores confits de pato da cidade (e, como o leitor desse blog descobre com facilidade, acho que já provei todos, ou quase todos).
Tudo bom, tão bom que até resolvemos pedir sobremesa, embora já estivéssemos muito satisfeitos. Ah, gula... Só que os doces, infelizmente, não estavam no nível dos pratos quentes. Na torta de marzipã e chocolate, o chocolate (uma mousse) estava muito doce e o marzipã, muitíssimo doce, açucarado. O gâteau de amêndoas com calda de framboesa lembrava mais mandioca do que amêndoa e parecia (será que cometeriam um pecado dessa ordem? Tomara que não) ter sido esquentado no microondas. A calda era gostosa, mas encobria o sabor do bolo. Comemos tudo, claro, mas ambos estavam muito abaixo dos patos.
Finalmente o café, suplicy, corretamente curto, acompanhado de biscoitinhos com canela. E a conta, 265 para duas pessoas, o que não é barato, mas não é exagerado (lembre-se: 100 foram do vinho). Na saída, os garçons e o maître agradecem e, melhor, sorriem, confirmando a simpatia da chegada.
Melhor é pensar que é de fato um bistrô: lugar onde se vai para comer determinados pratos, onde você sabe que encontrará comida bem feita a preço correto e será bem atendido. Preciso voltar logo lá. Até porque tem um ou dois pratos no cardápio (a começar pelo carré de cordeiro), que não saem da minha cabeça gulosa...
Charlô Bistrô. Rua Barão de Capanema, 440, Jardim Paulista, tel. 3088-6790 e 3083-3793
Escrito por alhos, passas & maçãs às 08h43
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